Moeda de referência mundial, reserva de segurança em períodos de crise, o Dólar tem perdido força internacionalmente durante o governo de Donald Trump.
Desde janeiro de 2025, a moeda americana recuou mais de 10% frente ao Euro, à Libra e ao Franco Suíço, além de acumular perdas diante de outras moedas relevantes. O movimento, no entanto, não segue o script clássico das desvalorizações anteriores. Diferentemente de períodos como 2010, quando o Fed expandiu a base monetária para conter os efeitos da crise financeira, agora o que afasta o capital estrangeiro são os próprios pilares da política econômica de Trump: tarifas generalizadas, reforma tributária que ampliaria o déficit público, pressão sobre o Federal Reserve para reduzir juros e instabilidade institucional.
O sinal mais revelador é a postura do próprio governo americano. Embora autoridades reafirmem o compromisso com um Dólar forte, na prática há indícios de que a Casa Branca vê na desvalorização cambial uma ferramenta para estimular a competitividade da indústria americana, barateando exportações e encarecendo importações.
O efeito Irã: um catalisador inesperado
Se a política de Trump já pressionava o Dólar estruturalmente, o conflito no Oriente Médio trouxe uma nova camada de complexidade e aumento da instabilidade internacional.
Mas, paradoxalmente, gerou oportunidades relevantes para o Brasil: o uso do Estreito de Ormuz pelo Irã, que o controla, como “moeda de troca” nas negociações para o fim da guerra, tem provocado uma alta volatilidade do preço internacional do petróleo, com a possibilidade de interrupções no abastecimento e graves consequências aos países mais dependentes da commodity.
Dessa forma, investidores globais buscaram reduzir exposição aos mercados mais afetados pelo conflito e rotacionar para mercados com menor correlação ao choque geopolítico, o que favoreceu significativamente o Brasil. Mesmo envolto em problemas político-econômicos internos, passamos a atrair parte do fluxo estrangeiro em busca de portos mais seguros e boas oportunidades de valorização. A entrada de capitais fortaleceu o Real, e o Dólar atingiu as mínimas dos últimos dois anos. Na data deste artigo, registrou a cotação de R$ 4,97 - sendo que há cerca de um ano chegou ao patamar de R$ 6,30. Importador de Diesel mas exportador de petróleo, o Brasil também ganha com a alta de seus preços, o que reforça ainda mais nossa moeda nesse momento.
No entanto, não podemos entender esse movimento como definitivo: ocupando a posição de maior produtor de petróleo do mundo e com sua produção intacta, os Estados Unidos passaram a exportar um alto volume de petróleo, fortalecendo sai moeda.
Além disso, ao que tudo indica, o conflito está longe do fim e muitos desdobramentos imprevisíveis ainda poderão ocorrer – incluindo a entrada da Rússia entre os atores, com o anúncio de uma reaproximação com o regime do Irã.
Sem contar a resiliência dos índices S&P 500 e NASDAQ, puxados pelo setor de tecnologia (especialmente semicondutores e IA), que parece ter forçado uma volta dos capitais estrangeiros aos Estados Unidos, invertendo a alta da B3.
Cenários futuros: o que esperar?
Uma coisa é certa: o preço do petróleo, que esteve estável por um longo tempo, agora assume outro nível de negociação, e não irá baixar de US$ 80 o barril em curto ou médio prazo, e os mercados futuros já precificam isso. Se o ambiente não é de crise aguda, certamente é de transição estrutural. Três cenários principais se apresentam para os próximos 12 a 18 meses:
Cenário 1 — Depreciação gradual e sustentada: o caminho que a maioria dos analistas projeta. Jeffrey Gundlach, da DoubleLine Capital, e Paul Tudor Jones afirmam que o Dólar deve cair ainda mais. Jones prevê uma desvalorização adicional de 10% em 12 meses, impulsionada pelo crescimento da dívida e da conta de juros dos EUA. O Morgan Stanley projeta retorno aos níveis da pandemia até 2026. Nesse cenário, o Real e outras moedas emergentes continuam se valorizando de forma moderada.
Cenário 2 — Volatilidade com choques geopolíticos: a guerra no Irã mostrou que eventos externos podem inverter rapidamente o fluxo de capitais. Dados do Banco Central mostraram saída líquida de US$ 3,2 bilhões do Brasil em abril até o dia 17, ampliando o fluxo negativo desde o início do conflito. Novos episódios de tensão podem gerar picos de Dólar mesmo dentro de uma tendência de baixa mais longa.
Cenário 3 — Reversão por crise de confiança: mais extremo, mas não descartável. Com um déficit orçamentário superior a US$ 4 trilhões por ano e dívida em expansão, os EUA dependem de investidores estrangeiros para financiar seus gastos. Se o cenário se deteriorar, esses investidores podem repatriar recursos, elevando os juros exigidos para financiar a dívida americana e agravando tanto a desvalorização cambial quanto o custo fiscal. Um ciclo vicioso que poderia sair do controle - e que, paradoxalmente, tornaria o dólar mais volátil, não necessariamente mais barato.
Impacto nos investimentos e estratégias para o investidor brasileiro
Para o investidor brasileiro que já possui ou considera exposição internacional, o momento pede revisão de estratégia. Sem pânico, mas com ajustes necessários.
Renda fixa americana: as Treasuries continuam relevantes como componente de portfólio, mas a queda do Dólar corrói parte do retorno em Reais. O foco deve migrar para vencimentos mais curtos, pelas incertezas sobre os juros americanos.
Renda variável global: a rotação de capital que beneficiou mercados emergentes também impulsionou bolsas europeias e asiáticas. ETFs de ações internacionais com hedge cambial passam a fazer mais sentido para quem não quer apostar diretamente na trajetória do câmbio.
Ativos reais e commodities: com o petróleo ainda em patamar elevado e o ouro valorizando em momentos de stress geopolítico, exposição a fundos e ETFs de commodities serve como proteção natural em carteiras diversificadas.
Proteção cambial em reais: Para quem tem passivos em dólar ou pretende fazer remessas, o momento atual — com o real valorizado — pode ser favorável para antecipar conversões ou ampliar posição em ativos dolarizados antes de uma eventual reversão.
A lição estratégica que fica
O episódio atual reforça uma tese central da InvestGlobal: diversificação geográfica não é especulação cambial — é gestão de risco. Quem já tinha parte do patrimônio fora do Brasil não sofreu o impacto da instabilidade de 2024, quando o Real foi uma das piores moedas emergentes.
O fortalecimento do Real, seja duradouro ou não, na verdade é a rara oportunidade de compra de ativos estrangeiros ou mesmo moedas, como o próprio Dólar, facilitando a internacionalização patrimonial com a qual tantos sonhamos. Podemos ver mais quedas, assim como podemos ver uma rápida recuperação - a moeda americana é famosa em enganar economistas que tentam prever a direção de sua cotação.
Mesmo com turbulências, o Dólar segue dominante como moeda de reserva global, e seguira assim ainda por décadas: não há substituto imediato com a mesma profundidade e liquidez, e dia em que sua hegemonia será - provavelmente - quebrada, ainda estã longe. A participação do Dólar em sua carteira é praticamente obrigatória, desde que obedecendo a limites, e seu uso pode ser como reserva de segurança, composição de portfólio e proteção cambial ou aquisição de ativos. Em um mundo onde a política americana tornou-se uma fonte de instabilidade - e não de ancoragem - a diversificação entre moedas, geografias e classes de ativos deixou de ser opcional.
O investidor que entende esse movimento antes da maioria sai na frente. E é exatamente para isso que a InvestGlobal existe.
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